Com bilhões de reais saindo do orçamento das famílias, avanço das apostas entra no radar das incorporadoras e aumenta a preocupação com a capacidade financeira de quem tenta comprar um imóvel
O crescimento das apostas online no Brasil começa a provocar preocupação em um setor que, à primeira vista, parece distante do universo das bets: o mercado imobiliário.
A discussão ganhou espaço entre executivos do setor diante de uma mudança percebida no perfil financeiro de parte dos consumidores. O brasileiro que chega hoje ao mercado para comprar um imóvel precisa lidar não apenas com o preço dos imóveis e as condições do financiamento, mas também com um orçamento cada vez mais disputado por dívidas, despesas do cotidiano e, em muitos casos, apostas.
O assunto foi discutido durante a 23ª Convenção Secovi-SP, realizada em São Paulo. Eduardo Fischer, CEO da MRV&Co, chamou a atenção para a situação financeira dos consumidores e afirmou que os clientes estão chegando à ponta de vendas mais desequilibrados financeiramente do que no passado. Para o executivo, as bets não são as únicas responsáveis por esse cenário, mas passaram a fazer parte de um problema maior que envolve endividamento e condições econômicas.
A preocupação encontra respaldo nos números.
Famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as bets
As famílias brasileiras tiveram uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões com bets em 2025, segundo dados divulgados pela Agência Brasil. O cálculo considera a diferença entre o dinheiro enviado às empresas de apostas e os valores recebidos de volta na forma de prêmios.
No período analisado, as casas de apostas movimentaram aproximadamente R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix. As perdas líquidas representaram o equivalente a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.
Para colocar o tamanho desse mercado em perspectiva, uma análise anterior do Banco Central estimou que aproximadamente 24 milhões de brasileiros realizaram transferências para empresas de jogos e apostas online somente entre janeiro e agosto de 2024. Naquele período, as empresas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês.
O problema para a economia não está simplesmente no ato de apostar, mas no que acontece quando esse dinheiro começa a disputar espaço com outras despesas dentro de um orçamento limitado.
A aposta já está substituindo outras despesas
Uma pesquisa da NielsenIQ Brasil ajuda a dimensionar essa mudança de comportamento. Segundo o levantamento, 26,3% dos lares brasileiros participaram de algum tipo de jogo ou aposta em 2025.
Entre os lares apostadores, 49% disseram enxergar a prática como uma maneira de conseguir renda extra. Mais importante para entender o impacto sobre o consumo: 10% admitiram substituir outros gastos para conseguir acomodar as apostas no orçamento familiar.
Entre aqueles que cortaram despesas, 47% disseram que os alimentos perderam espaço e 45,3% apontaram impacto sobre contas fixas, como água, energia elétrica e internet.
É justamente esse comportamento que começa a chamar a atenção de outros setores da economia.
Se a aposta consegue competir até mesmo com alimentação e contas básicas, é razoável que o mercado imobiliário acompanhe com atenção seus possíveis efeitos sobre a capacidade de poupança e de assumir compromissos financeiros de longo prazo.
O que isso tem a ver com a compra de um imóvel?
Comprar um imóvel normalmente exige um esforço financeiro muito diferente daquele necessário para adquirir outros bens.
Além de reunir recursos para a entrada, o comprador que depende de financiamento precisa demonstrar ao banco capacidade para assumir parcelas durante muitos anos.
As instituições financeiras analisam renda e outros compromissos financeiros antes da concessão do crédito. Segundo orientação do Banco Central, cada instituição possui seus próprios critérios, mas o comprometimento da renda com o financiamento imobiliário geralmente não pode ultrapassar 30%.Isso significa que o orçamento familiar tem papel decisivo na jornada de compra.
As bets não aparecem necessariamente como uma barreira isolada capaz de impedir um financiamento. O problema é o efeito que perdas recorrentes podem provocar quando somadas a cartão de crédito, empréstimos, financiamentos, despesas fixas e outras dívidas.
E o cenário já merece atenção.
Dados recentes do Banco Central mostram que o comprometimento da renda das famílias brasileiras com o serviço das dívidas, excluindo o financiamento habitacional, atingiu 26,6% em junho de 2026, recorde da série acompanhada pela autoridade monetária.
É nesse ambiente que as apostas passaram a ser observadas pelo setor imobiliário.
O cliente da bet é também o cliente do mercado imobiliário
Durante a Convenção Secovi-SP, Fischer chamou a atenção justamente para essa conexão.
O consumidor que compra um imóvel é o mesmo que compra eletrodomésticos, utiliza cartão de crédito, contrata serviços e distribui sua renda entre inúmeras despesas.
Por isso, quando uma parcela maior do orçamento passa a ser direcionada às apostas, os possíveis efeitos não ficam restritos às plataformas de jogos.Segundo o executivo, o aumento do desequilíbrio financeiro das famílias é um ponto de atenção mesmo em segmentos imobiliários que continuam apresentando demanda.
Essa discussão também interessa diretamente ao corretor de imóveis.
Um cliente pode ter renda e interesse em comprar, visitar imóveis e até demonstrar disposição para fechar negócio, mas chegar à análise de crédito com pouco espaço no orçamento, dívidas acumuladas ou sem recursos suficientes para a entrada.
Nesse cenário, compreender a situação financeira do comprador antes de avançar na negociação tende a ganhar ainda mais importância.
Bets já são relacionadas ao endividamento
O impacto das apostas sobre as finanças pessoais também vem sendo investigado por entidades do comércio.
Em abril de 2026, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) publicou um estudo específico sobre o impacto das apostas online no endividamento e na inadimplência das famílias brasileiras.
Segundo a entidade, a expansão das bets se tornou um fenômeno econômico e social relevante, levando a CNC a analisar seus efeitos a partir dos dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Outro levantamento, realizado pela Serasa em parceria com o Opinion Box, já havia encontrado um comportamento que ajuda a compreender a dimensão do problema: entre consumidores inadimplentes entrevistados que já tinham realizado apostas, 44% afirmaram que apostaram com o objetivo de conseguir dinheiro para quitar dívidas.
Ou seja, para uma parcela dos consumidores, a aposta deixa de ser vista apenas como entretenimento e passa a ser encarada como uma possível saída para problemas financeiros.
Da economia para uma questão de saúde pública
A preocupação também ultrapassa os efeitos sobre vendas, crédito e consumo.
Na avaliação de Fischer, o crescimento das apostas deve ser observado como uma possível questão de saúde pública. Para o executivo, o comprometimento da renda com jogos pode desequilibrar diferentes setores produtivos, e não apenas o mercado imobiliário.
O debate ocorre enquanto o mercado brasileiro de apostas passa por um processo de regulamentação e fiscalização. Em agosto de 2026, o Ministério da Fazenda informou que 85 empresas estavam habilitadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas para explorar apostas de quota fixa no país.
A regulamentação trouxe regras para a atividade, mas não eliminou a discussão sobre os efeitos econômicos e sociais de um mercado que movimenta bilhões de reais.
Um novo fator para o mercado imobiliário acompanhar
Ainda não é possível afirmar que as bets, isoladamente, estejam provocando uma queda nas vendas de imóveis no Brasil. O acesso à moradia depende de uma combinação muito mais ampla de fatores, como renda, juros, preço dos imóveis, disponibilidade de crédito, emprego e nível de endividamento.
O sinal de alerta está em outro ponto.
Quando bilhões de reais deixam todos os anos o orçamento das famílias por meio das apostas, esse dinheiro deixa de disputar espaço apenas com pequenas despesas do cotidiano. Em determinados casos, pode significar menos capacidade para formar uma reserva, juntar a entrada de um imóvel ou organizar as finanças necessárias para assumir um financiamento de longo prazo.
Para incorporadoras, imobiliárias e corretores de imóveis, portanto, acompanhar o fenômeno das bets deixou de ser uma discussão distante.
Afinal, antes de existir um comprador de imóvel, existe uma família tentando fazer o orçamento fechar.
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