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Crédito imobiliário pelo IPCA tem risco maior de inadimplência

Crédito imobiliário pelo IPCA tem risco maior de inadimplência

Crédito imobiliário pelo IPCA tem risco maior de inadimplência
Segundo agência de risco, inflação tem histórico de instabilidade no país e momentos de pico podem dificultar pagamento do crédito imobiliário por parte dos clientes

A nova modalidade de crédito imobiliário anunciada recentemente pelo governo, que permite o uso da inflação para compor os juros cobrados, amplia as opções de empréstimos disponíveis, abre o mercado para mais instituições financeiras além dos grandes bancos e tem potencial para ampliar o crédito imobiliário no país e levá-lo a mais pessoas. Por outro lado, o histórico de inflação instável e com grandes picos da economia brasileira é um risco para o uso do modelo no país e deve ser visto com cautela pelos agentes do mercado.

A avaliação é da agência de avaliação de risco S&P Global Ratings e foi apresentada na tarde desta quarta-feira (9) em evento sobre mercado imobiliário em São Paulo, promovido pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

“O crédito imobiliário tem prazos longos, de 20, 30 anos, e passa por vários ciclos políticos”, disse Leandro Albuquerque, diretor sênior de operações estruturadas da S&P na América Latina. “Hoje a inflação está muito confortável, mas daqui a quatro anos, oito anos, não sabemos quem será o governo, qual será a inflação. Isso é um fator de risco, e, se ela voltar para um nível muito alto, a estimativa de default dentro da carteira [de financiamentos imobiliários dos bancos] pode ser alta também.”

Em relatório, a S&P lembrou que a inflação no Brasil, tanto quanto a economia, têm histórico de grande instabilidade e grandes flutuações. Em 2015, por exemplo, em meio a choques de preços internacionais e aumento dos gastos públicos aqui dentro, o IPCA, índice oficial de preços, passou dos 10%, muito além da meta estipulada pelo Banco Central então de 4,5%.

O crédito imobiliário atrelado ao IPCA foi regulamentado por uma resolução do Conselho Monetário Nacional publicada em agosto (Resolução 4.739). A notícia veio junto com o anúncio da Caixa Econômica Federal de que começaria a oferecer também a nova modalidade. Foi o primeiro grande banco e, até aqui, o único a anunciá-lo – os principais concorrentes já anunciaram que têm interesse na ferramenta e que podem adotá-la em breve.

Diferentemente do modelo atual disponível, que corrige as parcelas por um juro fixo adicionado da TR, uma das taxas de juros de referência do Banco Central, a nova opção troca a TR pelo IPCA, o indicador oficial de inflação do país, também acrescido de um juro fixo.

A TR está atualmente zerada, e os juros oferecidos pela Caixa no financiamento imobiliário, por este modelo, vão hoje de 7,5% a 9,5% ao ano, de acordo com o grau de relacionamento do cliente com o banco.

Pela nova modalidade, sai a TR, a 0%, e entra o IPCA, que gira atualmente entre 3% e 4% ao ano. Os juros adicionais, por outro lado, ficam menores: irão de 3,25% a 4,95% ao ano, também de acordo com o grau de relacionamento do cliente com a Caixa (para servidores públicos, os juros adicionais partem de 2,95%).

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Ou seja, para uma inflação de 3,5% em um ano, o juro máximo a que a nova modalidade chegaria seria de 8,45% ao ano (3,5% de IPCA + 4,95% do juro máximo, aplicado ao cliente que não usa nenhum outro serviço ou conta da Caixa). A nova modalidade é opcional e o cliente pode escolher entre uma e outra. De acordo com a Caxia, 20% dos financiamentos imobiliários contratados no banco desde agosto já são pelo IPCA.

O problema, de acordo com a S&P, é a fragilidade da inflação brasileira, que pode fugir do controle em épocas de choque. “Um cenário de níveis elevados de desemprego e inflação poderá afetar a capacidade dos tomadores de empréstimos”, afirmou a S&P, em relatório.

A análise da agência não é de que a modalidade não deve existir. A S&P reforça que o crédito imobiliário no Brasil, hoje, usa recursos basicamente da poupança e do FGTS, que são limitados, e que a opção pelo IPCA abre a possibilidade de usar novos mecanismos do mercado financeiro para isso. O alerta, entretanto, é para que os bancos estejam atentos aos riscos de inadimplência que o empréstimo atrelado à inflação pode trazer.

Fonte: Exame

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