O imóvel na planta parecia uma excelente oportunidade, as parcelas cabiam no orçamento e a entrega das chaves estava prevista para alguns anos depois. Mas, ao longo da construção, o comprador percebeu que o valor da dívida aumentou, surgiram despesas não planejadas e o financiamento ficou mais difícil do que imaginava.
Situações como essa mostram por que comprar um imóvel na planta exige cuidados que vão muito além da escolha do empreendimento. Embora a modalidade possa oferecer boas oportunidades, algumas condições contratuais e financeiras só recebem a devida atenção quando começam a comprometer o orçamento.
O problema nem sempre está na construtora ou na qualidade do imóvel. Muitas vezes, está na falta de compreensão sobre os reajustes, os prazos e as obrigações assumidas no momento da compra.
O preço anunciado pode não ser o valor final do imóvel
Um dos principais pontos de atenção é a correção monetária durante a construção. Contratos de imóveis na planta frequentemente utilizam índices como o INCC, que acompanha a variação dos custos da construção civil.
Na prática, isso significa que parcelas e saldo devedor podem sofrer reajustes ao longo da obra. O comprador que considera apenas o valor apresentado no lançamento pode descobrir, meses depois, que precisará desembolsar mais do que havia planejado.
Por isso, antes de assinar, é importante verificar quais valores serão corrigidos, qual índice será utilizado e como ficará o saldo a pagar na entrega das chaves. Também vale simular cenários de aumento das despesas para avaliar se o compromisso continuará compatível com a renda familiar.
O financiamento pode ser um problema na entrega das chaves
Outro risco está na expectativa de conseguir financiamento imobiliário somente quando a construção estiver concluída. Durante esse período, as condições de crédito podem mudar, assim como a renda e a situação financeira do comprador.
Uma pessoa que tinha capacidade de financiamento no momento da compra pode enfrentar dificuldades alguns anos depois, especialmente se assumir novas dívidas, perder renda ou encontrar taxas de juros diferentes das esperadas.
Também é importante compreender que o saldo devedor poderá ter sido corrigido durante a construção. Assim, o valor que precisará ser financiado pode ser maior do que o inicialmente imaginado.
O planejamento financeiro deve considerar essa possibilidade desde o início, evitando depender exclusivamente de condições de crédito que ainda não estão garantidas.
Atraso na entrega pode gerar despesas inesperadas
Quem compra um imóvel na planta normalmente organiza sua vida considerando uma previsão de entrega. Entretanto, atrasos podem comprometer planos de mudança, contratos de aluguel e até a venda de outra propriedade.
A legislação prevê a possibilidade de uma tolerância de até 180 dias corridos, desde que essa condição esteja expressamente prevista no contrato de forma clara e destacada. Ultrapassado o prazo aplicável, podem surgir direitos para o comprador, conforme as circunstâncias da negociação.
Antes de fechar negócio, é fundamental conferir a data prevista para a conclusão do empreendimento, as condições de entrega e as consequências de eventual atraso.
Também é recomendável guardar materiais publicitários, comprovantes de pagamento e comunicações com a incorporadora.
Desistir da compra pode custar caro
Nem sempre o comprador consegue manter o planejamento inicial. Mudanças profissionais, dificuldades financeiras e situações familiares podem levar à decisão de desistir do imóvel antes da entrega.
Entretanto, o distrato imobiliário pode envolver retenções sobre os valores pagos, além de regras específicas para restituição. As condições dependem da legislação aplicável, do contrato e de características do empreendimento, como a existência de patrimônio de afetação.
Isso significa que o comprador não deve contar com a devolução integral e imediata de todos os pagamentos caso precise encerrar o negócio.
Conhecer antecipadamente as penalidades e os prazos de restituição é tão importante quanto compreender as condições de pagamento.
Documentação e histórico da construtora merecem atenção
O entusiasmo com o lançamento de um empreendimento não deve substituir a análise documental. Antes de comprar, é importante verificar o histórico da construtora e da incorporadora, conhecer obras já entregues e pesquisar eventuais reclamações.
Também é necessário conferir o registro do memorial de incorporação no Cartório de Registro de Imóveis competente, além de examinar o memorial descritivo e as condições contratuais.
Esses documentos ajudam a compreender o que está sendo adquirido, quais características foram previstas e quais obrigações cabem às partes.
O corretor de imóveis pode contribuir apresentando informações claras sobre o empreendimento e orientando o comprador a buscar assistência jurídica especializada quando surgirem dúvidas sobre a documentação ou o contrato.
O maior risco é comprar sem entender o compromisso
Comprar um imóvel na planta não é necessariamente um mau negócio. O problema surge quando a decisão é tomada apenas com base no preço anunciado, na expectativa de valorização ou na facilidade das parcelas iniciais.
O comprador precisa avaliar quanto poderá pagar durante a construção, quais despesas surgirão na entrega das chaves e como ficará sua situação financeira se os planos mudarem.
Um imóvel pode representar a realização de um sonho, mas o contrato precisa ser compreendido antes da assinatura. Afinal, o custo de uma decisão mal planejada pode acompanhar o comprador por muitos anos.
Quer entender também as vantagens de comprar na planta?
Além dos riscos financeiros e contratuais, existem vantagens e desvantagens que precisam ser consideradas antes de escolher esse tipo de imóvel.
Leia também: Comprar um imóvel na planta vale a pena? Veja prós, contras e cuidados antes de decidir.



