Número de pessoas que moram sozinhas quase dobrou nos últimos 10 anos

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O mundo parece estar cada vez mais individualista, e as estatísticas comprovam: quase dobrou o número de pessoas que moram sozinhas entre 2005 e 2015. Nos últimos 10 anos, os dados mostram que houve um salto de 115 mil para 209 mil no Espírito Santo. A maioria é representada por pessoas com mais de 60 anos, especialmente mulheres.

É o caso da aposentada Marlene Nascimento de Arcanjo, que tem exatamente 60 anos e vive em Vitória. Ela optou por morar sozinha há 10 anos.

Aposentada, Marlene é divorciada há 32 anos e tem dois filhos que são casados. Ela aponta que morar sozinha fez com que ficasse um pouco mais individualista. Mas só enxerga vantagens, pois pode fazer os próprios horários, comer na hora que desejar, ter a liberdade de receber amigos e ouvir música no volume que preferir. Quando questionada sobre a desvantagem, diz: “Até agora eu não vi”, brinca.

“Eu sou bem tranquila, as únicas coisas que faço são correr na areia, visitar os pais, os netos, e, no fim de semana, vou à praia com as amigas para me divertir. Eu não tenho problema com solidão e nem com a síndrome do ninho vazio. Eu convivo muito bem comigo mesma e falo com a maior convicção que não trocaria por nada essa minha liberdade”, acrescenta.

Em todo o país, na faixa etária acima de 50 anos, a proporção de pessoas sozinhas em casa subiu de 57,3% para 63,7% no período. E 15,7% das pessoas que têm mais de 60 anos não têm companhia em casa, no Brasil.

A coordenadora de divulgação do IBGE no Espírito Santo, Renata Coutinho Nunes, explica que o aumento de pessoas que vivem sozinhas está relacionado com o envelhecimento da população. Por isso, o número de idosos é maior. “A parcela nessa faixa etária saltou de 8,3% para 14,9% em 10 anos no país. Vem aumentando a população de idosos e fica mais comum morar sozinho porque os filhos casaram, pessoas ficam viúvas.”

Mulheres

Os dados também mostram que não só aumentou, mas foi invertido o perfil das pessoas que optaram em morar sozinhas no Estado: 51,9% são mulheres. Em 2005, a quantidade de mulheres era menor que a de homens e representava 49,4%.

A coordenadora acrescenta que o fato da quantidade de mulheres vivendo só ter crescido também está relacionada com a questão da longevidade: a expectativa de vida delas é maior que a de homens. “Há também a questão de existir mais mulheres que homens, o aumento delas no mercado de trabalho e a facilidade no divórcio”, completa.

A Síntese de Indicadores Sociais é feita pelo IBGE desde 1998, e utilizou números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2015 e do Censo de 2010.

Estado Civil

O Instituto de pesquisa Locomotiva também divulgou uma pesquisa que revela que 45% das pessoas que moram sozinhas são solteiras, mas também há viúvos, divorciados e até casados que optaram por viver em casas separadas.

Solteiro, o coordenador de sistema de licenciamento Igor Machado, de 28 anos, decidiu há 10 anos que iria viver sozinho em Cariacica. Apesar de morar a cerca de seis quilômetros da mãe, ele afirma que não depende de nada, sendo responsável por todas as tarefas da casa.

“Queria ter tranquilidade em relação ao barulho para poder estudar, liberdade de chegar em casa quando bem entender. Às vezes bate a solidão, mas é muito boa a tranquilidade e não ter ninguém para criticar o que você faz”, diz.

Taxa de fecundidade e número de casais com filhos diminuem

O aumento do número de pessoas que vivem sozinhas também está relacionado a outro fenômeno: o encolhimento das famílias, que recuaram tanto na taxa de fecundidade quanto na quantidade de casais com filhos.

No Estado, a taxa de fecundidade caiu quase 18% e passou de 1,92 filhos por mulher, em 2005, para 1,63, em 2015. E a proporção de casais com filhos que moram na mesma residência recuou de 50,5% para 42,6% no mesmo período.

Os empresários Andréa Nobre, de 50 anos, e Edesio de Assis, de 59 anos, moram em Vila Velha e são casados há 22 anos, mas se conhecem há 35. O casal, no início, até tentou ter um filho, mas como não aconteceu de forma natural, eles optaram por deixar a ideia de lado. Eles acreditam que isso não mexeu com a estrutura do relacionamento.

“A gente está sempre junto e se completa. Acabamos ficando um pouco egoístas porque nos acostumamos a estar somente nós dois, foi tudo fluindo naturalmente”, comenta Andréa.

A coordenadora de divulgação do IBGE no Espírito Santo, Renata Coutinho Nunes, analisa que vem caindo a proporção de casais com filhos em todo o país.

“A taxa de fecundidade também reflete neste cenário porque cada vez mais os casais têm menos filhos e isso contribui para que, caso tenha a separação, que a pessoa venha a morar sozinha”, diz.

Maioria recebe até dois salários

Os dados do IBGE mostram que morar sozinho não está ligado às pessoas que têm maior renda. Pelo contrário, 68,5% dos que vivem só recebem até dois salários mínimos, ou seja, R$ 1.874.

Muitas pessoas preferem abrir mão de maior parte da renda em troca de tranquilidade e liberdade, como é o caso do coordenador de sistema de licenciamento Igor Machado, de 28 anos. Ele afirma que as despesas com a moradia consomem 40% de seu salário.

“É um investimento e vale a pena porque tem mais tranquilidade. Apesar da casa ter dois quartos, eu não pretendo dividir. Se eu tivesse companhia em casa não focaria tanto nos estudos”, diz.

Mercado

O estudo do Instituto de Pesquisa Locomotiva também aponta que o público que mora sozinho movimenta R$ 103,7 bilhões por ano no país. O que também chama a atenção é que mais da metade das pessoas que mora sozinha vive em residências amplas, com cinco cômodos ou mais.

“Essa é a era da individualidade. Cada um na sua casa, desde que seja grande o suficiente para abrigar todo mundo quando for conveniente”, destaca o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles.

Apesar de muitas pessoas morarem sozinhas e ocuparem casas maiores, o diretor da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Estado do Espírito Santo (Ademi-ES), Augusto César Andreão, acredita que o mercado imobiliário de uma pessoa está crescendo e só tende a aumentar.

Ele destaca que, no Estado, é um mercado que tem atraído principalmente pessoas que se divorciaram e mulheres. “A mulher começou a ocupar mais o mercado de trabalho e passou a ter mais independência. E também há a questão da separação, em que a pessoa volta para a moradia de uma pessoa, precisando se readequar à nova realidade”, afirma.

Ele explica que é um mercado representativo, principalmente pela parcela de jovens que compram o imóvel pela primeira vez. “Ele também atrai pelo valor, mesmo a pessoa ficando mais tempo com os pais, ela compra para investir”, finaliza.

Análise

“As pessoas estão mais individualistas”

Estamos vivendo a hipermodernidade em que o individualismo está acentuado e as pessoas passaram a viver mais sozinhas. Isso é possível de acordo com alguns fatores. O primeiro é devido à tecnologia, onde as redes sociais estão cada vez mais presentes e isso diminui a necessidade do indivíduo estar presente. Antes, era preciso de uma pessoa ao lado para poder trocar conhecimento. Outra questão é a dinâmica da vida, quanto mais desenvolvido o sistema capitalista, mais individualista a pessoa fica. O poder econômico promove a possibilidade de a pessoa desenvolver várias tarefas sozinhas, como se alimentar na hora que desejar ou assistir a filme, por exemplo. E há o esfacelamento de utopias como o amor romântico. Na vida cotidiana, as pessoas sabem que não existem príncipe e princesa. Em de ter relacionamento que leva ao sofrimento, muitos preferem nem arriscar. Há novas formações de família e a tendência de que as pessoas morem sozinhas só aumenta, sobretudo nos centros urbanos.

Rosana Schwartz, historiadora e socióloga da Universidade Mackenzie

Fonte: Gazeta Online

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