Corretores de imóveis contam desafios vividos na pandemia

No período em que todas as atividades econômicas sofreram dura retração sob o impacto da pandemia do novo coronavírus, o setor imobiliário parece ter navegado internamente em realidades paralelas. Enquanto pesquisas mostram um crescimento nos financiamentos – mesmo em meio à crise sanitária –, a vida dos Corretores de imóveis mostra uma dura realidade, com quedas bruscas nas operações de venda e locação, e até mesmo a total inatividade em alguns setores, como o aluguel de imóveis para temporada.

Segundo o presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis na Bahia (Creci), Samuel Prado, a retração no mercado baiano foi de cerca de 50%.

“O setor de locação segurou um pouco, e as imobiliárias se adaptaram rapidamente”, diz Prado.

O conselho na Bahia reúne cerca de 13.500 profissionais da área.

Uma pesquisa da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), por exemplo, mostra que, em maio, os financiamentos para a compra e a construção de imóveis somaram R$ 7,13 bilhões no país, crescimento de 6,5% na comparação com abril, e de 8,2% ante maio de 2019. Mas, na avaliação dos corretores, as operações ficaram restritas a grandes empreendimentos, normalmente negociados por megacorretoras.

“Nos três primeiros meses desde o começo da pandemia fiquei praticamente parada, nenhum negócio foi efetivado”, conta a corretora Taíse Rodrigues, que atua há 13 anos no mercado.

Outro profissional que viu o movimento cair bruscamente foi o corretor George Crispim dos Santos, que atua com locação, venda e administração de imóveis.

“As locações e a administração ajudaram a segurar a onda. Precisei intermediar algumas alterações de contrato e continuei buscando cliente. Não tinha como parar”, conta o corretor.

Mas se teve um subsetor que realmente sofreu o impacto da pandemia foi o de locação temporária de imóveis, que, com movimento zero, deverá sentir os reflexos ainda por muito tempo, uma vez que depende da retomada principalmente das viagens e das atividades turísticas. Dedicada a esse nicho do mercado há quatro anos, a corretora Gabrielle Gabriel precisou recorrer ao auxílio emergencial [do governo federal], no qual a categoria foi incluída.

“Mas até agora consegui receber só uma parcela”, fala Gabriela. “Neste período, desde maio, já estaria fechando negócios para o verão. Até agora é zero. Com os congressos, treinamentos de empresas e outras atividades paradas, não há muita saída”, lamenta.

Ela conta que as poucas locações são para atender profissionais de saúde que, por segurança, precisaram se separar da família, além de pessoas do interior que vêm a Salvador para tratamentos de saúde.

Soluções e retomadas – Corretores de imóveis

Para driblar a crise do setor, corretores de imóveis e empresas lançaram mão da tecnologia. Assim como outros segmentos, os processos migraram para o mundo digital. “Hoje você consegue fazer tudo online, desde a busca do imóvel, uma visita virtual, reunir documentação até a assinatura do contrato. A única saída é para a mudança”, diz o presidente do Creci, lembrando que inclusive os cartórios adaptaram os procedimentos.

“Algumas tecnologias já estavam disponíveis, e muitas empresas já utilizavam. A pandemia apressou empresas e profissionais a adotarem estas ferramentas”, afirma o superintendente do Creci, Marco Suel Souza, responsável pela área de tecnologia do órgão.

Atualmente, os profissionais têm um portal imobiliário gratuito que foi desenvolvido pelo Creci de São Paulo, mas atende todo o Brasil. Ele acrescenta que o conselho também investiu em cursos e capacitação online para ajudar os corretores no momento de crise.

“Estas tecnologias foram a salvação. A assinatura eletrônica nos contratos de locação, por exemplo, é muito bom. Também apresentei imóveis por tour virtual. Com todos os cuidados também fiz algumas operações presenciais”, conta George. Confiante numa retomada, com a abertura gradual do comércio, o corretor diz que a necessidade de presença é muito forte neste ramo.

A corretora Taíse também está confiante no reaquecimento. “Este mês já tem dez operações em andamento. Normalmente, seriam umas 18, mas já está melhorando. Como eu trabalho muito com terrenos, lotes e casas que estão vazias, foi um pouco melhor, mas mesmo assim as pessoas estão ainda muito temerosas para fazer as visitas”, diz. “Mas nestes casos há muitas coisas que não é possível fazer virtualmente, porque o comprador que ver a casa ou terreno, analisar a localização, avaliar a vizinhança. Enfim, é muito mais presencial mesmo”, completa Taíse.

Além da volta gradual de outras atividades, o mercado imobiliário deverá ter a seu favor para a recuperação a queda dos juros imobiliários em várias instituições e um pacote de incentivos da Caixa – que inclui registro eletrônico de escrituras e financiamento de impostos e taxas. Outro fator importante é a queda da taxa Selic, mais baixa da série histórica brasileira, 2,25%.

“Com este quadro, o mercado de imóveis torna-se mais atrativo para os fundos de investimento e para quem quer investir em imóveis para locação”, explica o presidente do Creci.

Fonte: A Tarde UOL

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