“Pensei que estava fazendo bom negócio”, diz mulher que caiu no golpe do falso corretor de imóveis

Primeiro semestre teve 22.183 casos, maior número já registrado desde 2002, quando governo do Estado passou a divulgar os dados

Golpe do falso corretor de imóveis – Em busca de um imóvel maior para a família, uma moradora de 28 anos de Porto Alegre pensou que havia encontrado o negócio ideal. Verônica (o nome é fictício para proteger a identidade) acabou se tornando vítima de um golpe e viu a casa nova se transformar em prejuízo e transtornos que tenta superar. Assim como ela, milhares de pessoas foram ludibriadas neste ano no Rio Grande do Sul. O Estado nunca havia registrado tantos estelionatos no primeiro semestre como em 2020. Foram 22.183 casos, ou seja, em média, um a cada 11 minutos. falso corretor de imóveis

— É horrível. Dá vontade de chorar, de morrer. Mas não pode. Tem outras pessoas que dependem de ti. Tem que ficar intacta, por fora. Mas é terrível. Não sabia mais em quem confiar — descreve.

Em junho, ela buscava na internet por casas no bairro Restinga, na zona sul da Capital, quando recebeu o contato da mulher que se identificava como corretora de imóveis. Apresentava-se como Giovanna e dizia trabalhar em imobiliária de Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. Por WhatsApp, acertaram casas para visitar. Um dos imóveis, de R$ 120 mil, tinha o espaço e as condições de pagamento que Verônica buscava.

— Acertamos que eu daria entrada de R$ 10 mil e pagaria o resto parcelado. Pensei que estava fazendo um bom negócio — conta.

Verônica recebeu um falso contrato e recibo pelos R$ 2 mil entregues em mãos à estelionatária — única vez em que as duas se encontraram pessoalmente. Só não pagou o restante da entrada porque não conseguiu sacar o valor, mas acertou que repassaria na sequência. A falsa corretora informou a conta para a transferência.

A vítima foi até o imóvel, mas descobriu que as chaves não eram da casa. Enviou mensagem para quem acreditava ser o dono — o verdadeiro proprietário havia acompanhado a visita anterior, ludibriado pela golpista. Mas o contato que ele tinha, repassado pela falsa corretora, era de outra pessoa envolvida no esquema.

Por mensagem, fingindo ser o dono, a pessoa se desculpou e disse que as chaves eram da porta dos fundos, mas que levaria as corretas. O falso proprietário chegou a dizer que o pai havia falecido. Por isso, quem levaria as chaves seria a corretora.

Verônica fez contato com outra imobiliária, que havia anunciado a casa, para informar que havia comprado o imóvel. Foi quando descobriu que a moradia seguia à venda e decidiu registrar o caso pela Delegacia Online. Marcou encontro com a estelionatária, mas ela não apareceu e bloqueou o contato do telefone.

— O dono da casa apareceu e me explicou que era golpe. O número que ela tinha me passado não era dele. O contrato era falso. É um prejuízo, fora o tempo gasto. Ainda bem que não transferi o restante. Ou estaria pior hoje, tanto financeira quanto emocionalmente — relata.

A família segue em busca de outra casa. Como já venderam o apartamento onde moravam, caso não encontrem um imóvel para comprar até o fim deste mês, devem voltar para o aluguel.

O proprietário

O dono do imóvel, de 43 anos, que também preferiu não ser identificado, conta que fez o anúncio pela internet (Facebook e OLX). Depois disso, a falsa corretora entrou em contato e se ofereceu para auxiliar na venda. Também se apresentou como funcionária da imobiliária. Para confirmar, o dono ligou para o local, mas foi informado que a Giovanna estava em almoço. Pensou que estava tudo certo e seguiu a negociação. O que ele não sabia é que na imobiliária existe outra funcionária de mesmo nome.

No dia agendado para a visita na casa, a falsa corretora alegou que a filha havia adoecido. Sozinho, o proprietário mostrou o imóvel à família de Verônica. Dias depois, foi informado pela golpista que o negócio havia sido fechado e que a imobiliária pagaria o valor integral para ele. Por WhatsApp, recebeu comprovantes da transferência de R$ 120 mil. Mas o valor não aparecia na conta.

— Ela dava desculpas, dizia que era problema no banco. Marcamos duas ou três vezes e ela nunca apareceu — recorda.

Ao passar em frente à casa, ele viu que os portões tinham sido acorrentados e decidiu procurar a polícia. No mesmo dia, recebeu alerta de um corretor questionando se ele havia vendido a casa.

— Fui ligando tudo e percebi que era golpe. Usaram minha casa e meu nome para enganar essas pessoas — conta.

A imobiliária – falso corretor de imóveis

Em contato com a imobiliária de Novo Hamburgo, o proprietário e a vítima souberam que por lá a estelionatária já é conhecida. Desde o mês passado, a coordenadora de vendas da imobiliária, que teve o nome usado pela mulher, recebeu cinco telefonemas de pessoas questionando se ela estava negociando casas em Porto Alegre, todas ela na Restinga. Entre elas, Verônica. Há 18 anos na área, a profissional fez dois boletins na polícia e denúncia no Conselho Regional de Corretores de imóveis do Rio Grande do Sul (Creci).

— Começou com uma senhora que contou que anunciou em um grupo do Facebook que tinha R$ 14 mil para dar entrada em uma casa. Estava indo entregar o valor e ligou para a imobiliária. Expliquei que não sou eu. Orientei ela que não se coloca em rede social que tem dinheiro. É muito arriscado. As situações estão acontecendo principalmente nesse bairro, Restinga, então o que precisamos é alertar as pessoas. Fiquei muito triste porque percebi que são pessoas carentes, muitas vezes é o dinheiro que juntaram na vida. Nunca imaginei passar por isso ­— relata a coordenadora de vendas, que pediu para ter o nome preservado.

A investigação – falso corretor de imóveis

O caso de Verônica está sendo investigado pela 17ª Delegacia de Polícia, já que a entrega do dinheiro aconteceu no Centro, junto à agência da Caixa. Segundo o delegado Cleber Lima, a vítima será ouvida pessoalmente, porque o registro foi feito online, para obter mais detalhes sobre o golpe. Em Novo Hamburgo, os registros feitos pela coordenadora de vendas são investigados pela 3ª Delegacia de Polícia.

Fonte: Gaucha ZH

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